A FACE OCULTA DO RACISMO NO BRASIL

CAMINO, Leôncio. SILVA, Patrícia da. MACHADO, Aline e PEREIRA, Cícero. A face Oculta do Racismo no Brasil: Uma análise Psicossociológica. Revista de Psicologia Política. Volume 1, número 1 – Jan./Jun., 2001.

Fernanda Márcia de Lima [1]

Flávia Zarratini Amorim[2]

Luana Carola dos Santos[3]

O texto aborda questões instigantes no que diz respeito à face oculta de algumas expressões e atitudes racistas no Brasil. Por meio da citação de diversas pesquisas já realizadas sobre o tema intitulado racismo e do relato de uma pesquisa realizada pelos autores com a amostra de cento e vinte universitários, dentre eles homens e mulheres (a maioria mulheres) com a faixa etária de 26 anos da Universidade Federal da Paraíba os autores nos convidam a pensar a seguintes questões: “Como se processam no Brasil as normas anti-racistas e como se justificam as discriminações concretas?” (p.19) A maioria dos estudantes que participaram da pesquisa não se declaram como preconceituosos, mas reconhecem o povo brasileiro como um povo preconceituoso. Há um reconhecimento de atitudes preconceituosas no outro, mas não em si. Como pensar então as articulações psíquicas, sociais, históricas, políticas e econômicas no processo de formação da ideologia racista?

A pesquisa realiza pelos autores com os universitários é quantitativa e qualitativa, utilizam como procedimentos metodológicos o questionário, que contempla perguntas associadas à investigação de atitudes preconceituosas associadas à própria pessoa e ao povo brasileiro. Os autores relatam que utilizam também uma técnica que pretende convidar as pessoas a nomear com adjetivos as qualidades e os defeitos das pessoas brancas e negras. Com esta técnica investigaram os estereótipos construídos pelos universitários sobre o “ser negro” e o “ser branco”. Achamos interessante a forma como os pesquisadores estruturam sua pesquisa. Na Conferência de Abertura do XVIII Encontro Regional da ABRAPSO Minas o Professor e pesquisador Leôncio Camino (um dos autores deste texto) esteve presente e lançou uma discussão interessante sobre a necessidade de articulamos mais a pesquisa qualitativa com a pesquisa quantitativa, sem dicotomizações, mas dialogando estes jeitos de pensar/fazer pesquisa nas ciências humanas. Neste evento teceu reflexões e apresentou um “olhar psicossociológico sobre as eleições”. Ao lermos este texto confirmamos suas reflexões teóricas.

Os autores fazem apontamentos importantes durante o texto para dizer da face oculta do racismo alguns deles são: observamos que nas sociedades modernas atitudes de discriminação racial e étnica são proibidas no cenário público por lei. Todavia será que apenas esta proibição garante a não disseminação e reprodução de atitudes preconceituosas? Esta é uma questão cerne que atravessa o texto.  Segundo as pesquisas apresentadas observa-se que há novas formas de preconceito racial “o que parece estar ocorrendo é uma mudança nas formas de expressão e no conteúdo do preconceito”… “O racismo aberto, militante e agressivo dos anos 40 esta sendo gradualmente substituídas pela preocupação menos evidentes e mais difundidas de racismo” (p.15); Neste sentido os autores lançam mão do conceito de “racismo cordial” [4]e do fenômeno da globalização[5] para melhor compreendermos o surgimento de novas formas de preconceito.

Outro ponto interessante que os autores realçam é que apesar da Psicologia considerar o racismo como uma atitude, é necessário pensarmos as atitudes dialogadas com as condições históricas, culturais e econômicas dos sujeitos. Um fator que atravessa as expressões do racismo no Brasil é a miscigenação. Os autores têm uma posição crítica em relação à obra de Gilberto Freire “Casa Grande e Senzala”, que sustenta os mitos do lusotropicalismo. E é também a miscigenação que sustentaria a crença da democracia racial no Brasil. [6]

Os dados do IBGE em relação e cor e raça são estudados pelos autores que localizam que a classificação pela cor apresenta sérios problemas no Brasil devido à miscigenação da população e a dificuldade da mesma de saber o que está sendo perguntado: cor da pele, raça ou etnia.

Alguns resultados apresentados na pesquisa realizada pelos autores trazem os seguintes apontamentos: Ao ser referir-se a si, o sujeito tenderá a negar ser preconceituoso. Sobre as perguntas que dizem respeito às atividades desenvolvidas por pessoas brancas e negras, os estudantes responderam que os brancos tende a ocupar lugares de poder e pessoas negras ocupam atividades relacionadas a espetáculos, esportes. Os adjetivos atribuídos a pessoas brancas são referentes a adjetivos de pessoas de países de primeiro mundo, e aos negros, adjetivos de pessoas de terceiro mundo.

Para concluir: Observamos por meio do texto e das questões e análises históricas e pesquisa exploratórias desenvolvidas pelos autores que no Brasil existe preconceito, mas a grande maioria não se percebe como preconceituosa. Sendo assim, observamos que por trás da lei que determina a proibição de atitudes preconceituosas, há sublimes formas de disseminação do racismo que precisam ser colocadas em evidência e discutidas politicamente.

[1] Acadêmica do 10° período de Psicologia da PUC Minas São Gabriel.

[2] Acadêmica do 10° período de Psicologia da PUC Minas São Gabriel.

[3] Acadêmica do 10° período de Psicologia da PUC Minas São Gabriel.

[4] Este conceito foi elaborado por Rodrigues (1995), que caracteriza o racismo cordial como uma atitude de não ofender mais aquele que se discrimina. Todavia, temos a presença de um racismo zelosamente guardado e mascarado.

[5] A globalização seria um modo de justificar o racismo como produto da desigualdade econômica. Neste sentido teríamos a questão do racismo não está na cor, mas na classe econômica.

[6] As discussões têm muitas semelhanças com o texto intitulado “A mestiçagem enquanto o dispositivo de poder e a constituição de Nossa Identidade Nacional”, de autoria de Emanuel Mariano Tadei. Texto utilizado na disciplina de Psicologia Social II para discussões/reflexões sobre racismo.

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